O palco do novo planeta

Na nova configuração da Terra, os shows acontecem na varanda. E no Bosque Marapendi não é diferente

Os irmãos Hugo e Marina, à frente, com o primo Rodrigo

“É como estivéssemos vivendo em outro planeta”, diz, sobre a quarentena, o marqueteiro político Mario Marques, morador da Barra e, agora, Secretário de Comunicação do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Na linha de frente da pandemia que apavora o mundo, Marques não vê as filhas e a mãe há mais de 40 dias. O mundo mudou e em meio a tantas metamorfoses, uma delas é o novo palco onde os artistas se apresentam. Mede cerca de 8 metros quadrados e só fica pronto quando o varal de roupas é removido. É bem mais alto, e, no caso dos músicos Marina e Hugo Andrade, fica a 40 metros de altura do chão, mais precisamente no 12º andar, na varanda do apartamento deles, no condomínio Villa Borghese. É a espaçonave de 2020.

“Com a quarentena, tivemos que cancelar a agenda de shows e começarmos a fazer lives na internet. Um dia, tivemos a ideia de colocar as caixas de som na varanda e tocar para os vizinhos”, lembra Marina, que acompanha, com um violino, o irmão Hugo nos teclados. O que aconteceu a partir dali desafia qualquer lógica emocional.


Quando Marina olhou, senhores dançavam coladinhos nas varandas vizinhas, casais se abraçavam e crianças pulavam de alegria. Chorando copiosamente, Marina não parou de tocar e enfileirava um hit atrás do outro com o seu irmão.

“Foi de arrepiar. Só de lembrar fico emocionada”, recorda a violinista, que continua transmitindo as apresentações ao vivo nas suas mídias sociais.

Confinados, os vizinhos viraram fãs. Uma pessoa chegou a enviar uma carta para a dupla onde relatava a sua luta contra depressão. “Ela escreveu que estava se sentindo ainda mais sozinha por causa da quarentena. Há sete dias não via ninguém e foi para a varanda chorar, quando começou a escutar uma música. Disse que salvamos o dia dela”, conta Marina.

Numa outra mensagem, uma senhora relatava que não tinha preço o que eles estavam fazendo pelos vizinhos.

“O show é o único momento da semana que consigo esquecer a parte mais difícil da minha vida”, diz um trecho da mensagem.

Na imagem da live, Marina e Hugo durante um show na varanda

Sonho adiado

Na varanda, a dupla encontra o afago por ter o desejo de viver de música interrompido


Não tem nem um ano que os irmãos Marina e Hugo largaram tudo para viver de música. Ela abandonou o emprego dos sonhos numa universidade americana onde dava aula de letras. Ele deixou de lado o serviço numa empresa onde trabalhava com engenharia eletrônica e computação. Os shows em eventos e formaturas só cresciam. Marina chegou a se apresentar todos os dias na Rock District, no Rock in Rio 2019. Até que veio o cruzado de direita. Com o surto de coronavírus viram o castelo desmoronar.

“Quando começamos a ver as noticias sobre o confinamento já imaginávamos o que aconteceria. Logo fizemos um planejamento com uma meta de vídeos para gravar e continuar o trabalho na intertnet. Não chegou a bater desespero, porque tínhamos nos planejado para isso com uma reserva financeira”, explica Marina.

O repertório da varanda é quase o mesmo dos shows que a dupla já fazia. Agora, adaptado para os pedidos da plateia que assiste a tudo dos camarotes com tela protetora.


“Evidências”, de Chitãozinho & Xororó está entre as mais pedidas, seguida do tango “Por una cabeza”, de Carlos Gardel e “Love of my life” (Queen). Mas de releituras do clássico ao samba os irmãos passeiam por todos os estilos musicais.

Vez ou outra, o primo Rodrigo Andrade, que mora na mesma rua, junta-se ao dueto e toca percussão. Com cerca de 1h de duração, os shows acontecem sextas ou domingos, entre 18h e 20h.

Se já teve reclamação? Sim, formal e enviada pela administração. Mas os moradores fizeram um abaixo-assinado para a dupla prosseguir com as apresentações.

O show tem que continuar...


O saxofone também chora

No quarteirão ao lado dos Andrade, numa outra varanda, o hino do Brasil ecoa de um saxofone. Quem assopra o instrumento é o empresário e produtor musical, Dan Sebastian. Fanático por jazz, é sempre com o hino que ele, em dias alternados, da inicio a um punhado de canções, começando sempre às 17h30m.

O “palco” no seu condo-mínio, o Villa Di Genova, é bem maior, tem cerca de 20 metros quadrados. Ali, Dan dispara petardos de Frank Sinatra, Cole Porter e outros ícones do gênero.

Com uma base pré-gravada, que funciona como uma banda, Dan despeja no ar um repertório que tem a influência do público. ‘Fly me to the moon’, de Sina-tra, é a mais pedida.

“Muitos vizinhos que não me conheciam agora são meus seguidores no Instagram. A música está unindo as pessoas. A minha ideia é tentar colocar o astral para cima. Quero espalhar a arte, espalhar o amor. Eu ajudo as pessoas e contribuo para a minha sanidade” disse o carioca, numa entrevista para o jornal O Globo.

Ao final de cada canção, os aplausos costumam ser calorosos.

Integrante da banda de jazz Quinteto Nuclear, Dan recorda como tudo começou: “Estava em casa, bem para baixo, ainda mais com os eventos cancelados por causa do coronavírus. Então eu vi uma senhora com cara de tédio na varanda de um prédio em frente. Comecei a tocar. Um monte de pessoas apareceu nas varandas e começou a curtir”.

Bem-vindos ao novo planeta Terra...


© by A Folha do Bosque

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