top of page

Fama e pressão no volume máximo

  • 1 hour ago
  • 5 min read

Documentário da Globoplay, Andar na Pedra mostra a montanha-russa da fama dos Raimundos


“É como escalar o Monte Everest. Se você olha pra cima, não vê o topo, só vê as dificuldades. E desiste.” A frase do diretor Daniel Ferro não é apenas um desabafo de bastidor. É o próprio espírito de Andar na Pedra – A história dos Raimundos, a série-documentário que acaba de aterrissar no Globoplay e já vem sendo tratada como um daqueles raros acertos que unem crítica, público e memória afetiva.


Ao longo de nove meses praticamente enclausurado em uma sala de coworking na Barra da Tijuca, Ferro mergulhou em cerca de 250 horas de material bruto para lapidar uma narrativa enxuta e potente.


Morador do bairro desde 1989, o diretor carrega na bagagem não só a experiência de quem viu a Barra crescer, mas também de quem viveu de perto o fenômeno Raimundos. Especialmente nos tempos em que o grupo incendiava o palco do Metropolitan, entre 1995 e 1999. Era ali, naquele caldeirão sonoro, que se desenhava uma das trajetórias mais improváveis e, ao mesmo tempo, mais brasileiras do rock nacional.


Andar na Pedra conta essa história como ela merece: sem filtro, sem pressa e sem romantização excessiva. É, antes de tudo, um retrato de quatro amigos que decidiram transformar barulho em projeto de vida. Um empreendedorismo à moda antiga. Ou melhor, à moda punk: correr atrás de gravadora, abrir espaço na marra, crescer na base da insistência até atingir o estrelato.


O documentário, entretanto, não para no sucesso. E é aí que ele ganha corpo, densidade e relevância. Falta de estrutura emocional, ruídos de comunicação, desorganização interna. O que antes era energia criativa passa a ser pressão. E o documentário vai fundo nessas fissuras.


Um dos momentos mais impactantes, e já apontado por muita gente como revelador, é a saída do vocalista Rodolfo Abrantes, justamente quando a banda estava no auge. “Rodolfo saiu da banda para virar evangélico”, falava-se na época. É verdade, Mas a série desmonta versões superficiais, mostra a realidade e o im-pacto dessa decisão na trajetória do grupo.

Na Barra da Tijuca, onde ideias nascem entre o mar e o concreto, a história de Daniel Ferro ganha um charme extra. É aqui, de um escritório aparentemente comum, que sai um dos documentários mais comentados do momento. Um trabalho que, assim como a escalada ao Everest que ele descreve, exige fôlego, persistência e uma boa dose de coragem.


E, pelo que dizem por aí, público e crítica em coro, a vista lá de cima valeu muito a pena.


  • Bate-papo com Daniel Ferro


Qual o segredo para transformar 250h de arquivo em 5h?

“Foram 250 horas de material que precisavam virar uma série curta. Fiquei nove meses isolado numa sala de coworking na Barra da Tijuca montando isso. Foi um processo longo e solitário. Se você olha para o todo, parece impossível. É tipo escalar o Monte Everest. Se você olha pra cima, não vê o topo, só vê as dificuldades, desiste. A gente enfrenta e aceita o desafio sem pensar muito. Mas é passo a passo. E no fim, depois de nove meses, conseguimos chegar lá".


Histórias como um possível câncer do Rodolfo… Você já sabia ou descobriu na hora da entrevista?!

“O documentário traz várias revelações. Não vou dar spoiler. Depois vocês me contam (risos). Mas na série têm tragédia, brigas, perdão tardio, arrependimento…”.


Você disse que, em todo momento, parecia que um dos integrantes do grupo ia escapar das entrevistas… O que eles falavam pra você?

“Demorou anos para conseguir reunir os quatro. Era essencial ter todos — as versões são complementares e contraditórias. Houve desconfiança, ciúmes, medo de favorecimento. Eu precisei reforçar minha ética jornalística para garantir liberdade editorial. Mostrar que todas as versões seriam respeitadas foi fundamental para que eles aceitassem participar e ao mesmo tempo não teriam como impor nada no corte final. O resultado acaba sendo esse trabalho profundo, que não elege heróis ou vilões, mas sim humaniza toda relação.”.


Você disse q sua mulher perguntava: “Para que vc está fazendo esse documentário?”. Além dela, tinha muita gente que falava a mesma coisa? Muitos desacreditavam?

"Foi um processo de muita paciência — ou melhor, de amor. Eu era fã dos Raimundos desde adolescente e sempre senti que essa história precisava ser melhor contada. Mas, sem dúvidas, foram vários momentos tomando porrada de todos os lados e confesso que se não tivesse amor envolvido na causa, eu também teria desistido".


Você esperava que os integrantes da banda fossem se abrir da forma como fizeram?

"Minha relação com eles veio de muito antes. Eu tive banda, vivi o universo musical, acompanhei artistas na estrada e fiz outros projetos - programas de TV, DVDs, documentários de artistas mais variados, de Ivete a Catra, de Sepultura a Michel Teló. Nunca fui só jornalista — eu era um cara de banda com uma câmera. Isso gerou confiança. Eles se abriram de forma muito profunda, quase como uma sessão de terapia. Foi uma troca muito forte e isso ficou muito evidente na série".


Você disse que as entrevistas com os integrantes era como um confessionário do Big brother. Você atrás da câmera e eles te olhando… Poderia falar um pouco mais sobre isso?

"A escolha de fazer os depoimentos olhando direto para a câmera foi intencional. Eu queria criar uma conexão direta com o espectador, um tom confessional. Isso aproxima muito — parece que a pessoa está falando com você. Combinado com o material de arquivo, isso criou uma experiência imersiva e emocional. Ele não está falando só com o diretor, ele está se abrindo para vc. E vc em casa, consegue enxergar a sinceridade e emoção. O olhar diz tudo".


Esperava essa repercussão que o doc está tendo?

"Eu sempre acreditei no potencial dessa história, mesmo quando muita gente duvidava. Hoje, vejo que o documentário ultrapassou a bolha da música. Psicólogos, advogados, público cristão, cada um encontra uma camada diferente, uma interpretação única. É uma história sobre transformação, arrependimento e reconstrução. Fico feliz demais com a repercussão".


Para o Daniel Ferro: porque, afinal, o Rodolfo saiu dos Raimundos?

“Não existe uma resposta simples. É um processo, como o “jarro de Freud”: várias pequenas coisas que se acumulam até transbordar. A vida transforma as pessoas, e ele seguiu esse chamado. O documentário não dá respostas fechadas. cada um tira sua própria interpretação.”.


Quais os próximos planos do diretor que fez o melhor doc da história do rock nacional?

"Realmente tenho ouvido de muita gente “melhor doc que já vi na vida” e outros elogios emocionados, o que é muito forte. Isso também aumenta a responsabilidade para os próximos projetos. Já estou trabalhando em outro, também ligado a essa geração 90. Acredito que o sucesso vem da sinceridade — não evitar perguntas, buscar a verdade. O público valoriza isso hoje. Estamos vivendo uma era em que a honestidade narrativa faz toda a diferença".


A capa da Folha sobre o documentário


 
 
 

Comments


bottom of page