A arte de renascer das sobras
Após décadas na TV Globo, o cenógrafo Elpidio Maradona reinventa objetos e a própria trajetória na tradicional Feira da Praça XV

Aos sábados pela manhã, entre as relíquias e o movimento pulsante da Feira da Praça XV, no coração do Rio de Janeiro, um homem transforma o que o mundo rejeita em reflexão e humor. Elpidio Maradona, natural de Itaboraí, carrega na bagagem décadas de experiência nos bastidores da televisão, do cinema e do teatro. Hoje, com mais de 60 anos, ele canaliza sua genialidade criativa na assemblage, técnica artística que consiste em juntar materiais diversos para dar um novo sentido a eles.
A relação de Elpidio com a criação começou na infância simples no interior fluminense, onde fabricava os próprios brinquedos, como carrinhos de rolimã e bolas de meia. Nascido em uma família profundamente ligada ao Carnaval, seu bisavô fundou o primeiro rancho carnavalesco de Itaboraí, ele cresceu dormindo entre máquinas de costura e costumava ver o improviso transformar a escassez das pequenas escolas de samba em puro espetáculo. “Tentei fazer outras coisas na vida, mas nada funcionava muito bem”, confessa o artista, que sempre viveu da sua sensibilidade.
Essa capacidade de improvisar e ressignificar o levou à TV Globo, onde trabalhou na cenografia de produções marcantes, desde o lirismo da microssérie Hoje é Dia de Maria até o humor escrachado do Casseta & Planeta. Nos bastidores do humorístico, aliás, afinou sua veia satírica e tornou-se tão querido que era chamado pelos colegas de “mais um Casseta”. Toda essa bagagem desaguou em seu ateliê autoral quando foi desligado da emissora e precisou se reinventar.
Suas criações atuais seguem a estética steampunk, uma vertente da ficção científica que traz um ar futurista retroalimentado por engrenagens, metais e elementos industriais. Mas o diferencial de Elpidio vai além da estética: cada peça é um manifesto político e social contra o consumismo exagerado. Estima-se que ele já tenha elaborado mais de 1.700 obras.
“O que diferencia a arte do artesanato é usar essa exposição para mandar recados. Eu tenho tesão em vender uma peça onde a pessoa está comprando uma coisa que um dia ela jogou fora. É a vingança do descarte” , diverte-se o artista, lembrando uma verdade ecológica incontestável: “Não se joga nada fora do planeta. Tudo continua aqui.”
Durante a pandemia, Elpidio foi rigorosamente isolado pela família em casa para sua proteção. “Só colocavam a comida por debaixo da porta”, conta, rindo. O confinamento forçado virou combustível: ele produziu intensamente, gerando um acervo que resultou em diversas exposições e cujas vendas se espalharam pelo mundo. Hoje, suas peças decoram lares em 16 países, levadas por turistas encantados. E se alguém pergunta por que ele não viaja para o exterior para acompanhar o sucesso de suas obras, a resposta é imediata e bem-humorada: “Tenho muito medo de avião”.
A escolha de expor exclusivamente aos sábados na Praça XV é estratégica e afetiva. A feira funciona como uma grande vitrine e dali surgem encomendas robustas de cenografia, locações para grandes eventos e o contato direto com o público. E, para preservar o convívio com a família durante a semana, ele optou por não participar de outras feiras, equilibrando assim a rotina de criador com os afetos da maturidade.
Apaixonado também pelo universo do circo, Elpidio Maradona prova que o tempo não desgasta a criatividade; pelo contrário, apura o olhar. Em um mundo que descarta pessoas e objetos com a mesma velocidade, sua arte é um lembrete estético e bem-humorado de que tudo, e todos, merecem uma segunda chance para brilhar.
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